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A ARTM, entrevista a Dra.Vong Yim Mui, Chefe do Departamento de Prevenção e Tratamento de Toxicodependência. Esta será a primeira entrevista entre muitas outras que a ARTM pretende realizar mensalmente a individualidades ligadas ao campo da toxicodependência. Esta entrevista realizou-se a 13 de Janeiro de 2003.

O nosso agradecimento à Dra.Vong Yim Mui pela sua amável disponibilidade para esta iniciativa.

ARTM: Sra. Dra. para que uma pessoa possa ser admitida na clínica do DPTT, o que necessita de fazer, quais são os procedimentos? Para onde é que podem contactar?

Dra. Celeste: O complexo Clínico de Desintoxicação, sob administração do Departamento de Prevenção e Tratamento de Toxicodependência, encontra-se equipado a nível de segurança, higiene e de conforto clínico com sofisticadas estratégias. As nossas equipas de profissionais de desintoxicação incluem trabalhadores sociais, Psicólogos, Enfermeiras e Médicos a fim de oferecer um serviço completo de desintoxicação voluntária e de reabilitação.

A nossa estratégia principal passa pelo atendimento de toxicodependentes mediante consulta externa, pelo departamento de tratamento primário e salas de multi-usos. Todos aqueles que necessitarem dos nossos serviços podem- se deslocar ao complexo clínico, situado na Estrada Nova em Macau, ou telefonar imediatamente para a linha urgente de desintoxicação, 781662. Através desta linha serão de imediato dados conselhos e prestados outros serviços. Todos estes serviços são gratuitos.

ARTM: Quanto tempo dura o tratamento? Após o fim do tratamento o que lhes sugerem?

Dra. Celeste: Para os novos casos, o atendimento externo, dentro do possível, providenciara um trabalhador social para realizar uma reunião com o utente no próprio dia do pedido de ajuda. Após o trabalhador social avaliar o utente, um plano de tratamento será indicado, este plano de tratamento começara cinco dias após a reunião inicial. Durante estes cincos dias, será feito um diagnóstico médico, testes sanguíneos, enfermagem, raio-x, aconselhamento, apoio social, etc. Baseado na situação do caso, a nossa equipa informará o utente para ser admitido no Departamento de Tratamento Primário a fim de ser submetido a internamento temporário para desintoxicação. Após esta fase poderá optar pelo acompanhamento através da consulta externa ou ser transferido para um centro de tratamento. Desintoxicação e Reabilitação são processos bastante demorados. Em alguns casos certos utentes necessitam de acompanhamento durante mais de cinco anos. A desintoxicação e o tratamento médico demoram aproximadamente de 14 a 21 dias e o processo de reabilitação e de reinserção social necessita de bastante tempo. O aconselhamento social após tratamento demora mais de meio ano. Para além disto, todos aqueles que recorrem a consulta externa é-lhes organizado um plano de tratamento normalmente para um ano que será dividido em curto, médio ou longo prazo, porque a desintoxicação é voluntária e muitas situações podem ocorrer durante este período de tempo. Por exemplo, existem casos de abandono a meio do programa, outros solicitarão reinternamento e outros apenas mantém o contacto e aconselhamento por muitos anos. Assim, os planos de tratamento têm que ser flexíveis.

ARTM: Se uns pais descobrirem que o seu filho está envolvido em drogas, o que devem fazer? quem podem contactar?

Dra. Celeste: Se os pais descobrirem que o filho(a) tem problemas com a droga, primeiramente devem manter a calma para enfrentar o problema. Carinho e paciência para entender o problema de consumo de droga que esta a afectar o filho(a) e o que estes pensam deste problema. Depois, então tentar resolver o problema em conjunto e procurar apoio profissional. Podem contactar a linha urgente contra a droga através do número 781791 ou directamente para a linha urgente do serviço de desintoxicação 781662. Os nossos profissionais dão assistência aos pais e ao jovem em causa.

ARTM: Sra. Dra. qual é a situação geral do consumo de drogas em Macau?

Dra. Celeste: Através de uma perspectiva geral e comparando com outros países, o problema de droga em Macau não é muito sério, mas necessitamos de prestar atenção aos tipos de droga e de outras substâncias que surgiram nestes últimos anos. Por exemplo, existem consumidores de drogas psicoactivas que apenas as consomem na China, não podemos dar espaço ou ser tolerantes com o consumo de drogas e tráfico. A luta contra a droga e a cooperação regional está a melhorar e precisa de continuar.

ARTM: Ultimamente tem-se assistido a diversas apreensões de Ice, Ecstacy e Ketamine na posse de jovens estudantes. Acha que os jovens têm conhecimento dos perigos que estas drogas representam?

Dra. Celeste: Recentemente existiram certas situações de jovens a traficar droga. O nosso departamento encontra-se profundamente preocupado com estes casos. Nós acreditamos que a maior parte dos jovens de Macau são saudáveis e têm conhecimento acerca das drogas e que o crime de droga é bastante sério, no entanto nestes casos são jovens que foram tentados ou forçados por más influências ou simplesmente por não se importarem pelos riscos que podem enfrentar.

ARTM: Quais são os perigos que estas drogas representam?

Dra. Celeste: Para os efeitos negativos das drogas como o ICE, Ketamine, MDMA, etc, poderão consultar a Web Page da ARTM na informação sobre drogas.

ARTM: A clínica do DPTT está apta para apoiar esta nova geração de consumidores de drogas?

Dra. Celeste: Através de factos e pela nossa experiência de trabalho, normalmente os toxicodependentes apenas encaram a sério o seu problema e pedem ajuda após 5 a 10 anos de consumo, assim os nossos casos têm uma idade média cerca dos 30 anos. Toxicodependentes menores de 18 anos são muito poucos. A nova geração de consumidores de drogas psicoactivas, são mais passivos e tardam a reconhecer os perigos que estas drogas podem causar. Um dos objectivos para o nosso departamento de trabalhadores sociais é fortalecer o complexo clínico para desintoxicação de consumidores deste tipo de drogas e controlar o crescimento de consumidores de drogas psicoactivas no futuro.

ARTM: Que tipos de prevenção é que o DPTT faz para alertar os jovens sobre as consequências das drogas?

Dra. Celeste: A prevenção deve ser feita de forma que abranja diferentes camadas sociais e escolher métodos diversificados para que surta efeito. No trabalho de prevenção para jovens, o nosso departamento realiza um trabalho preventivo educativo activo, positivo e dinâmico, para além disto, também informamos os jovens sobre as consequências negativas das drogas e ensinamos aos jovens técnicas contra a droga, como recusar droga, como fazer escolhas correctas e crescer e viver de forma saudável. Recentemente o nosso departamento alargou os seus serviços de prevenção para as crianças onde desenvolvemos um Curso de Educação Sadia direccionado para o problema do tabaco. Em breve também iremos organizar cursos sobre os aspectos negativos do tabaco, actividades de teatro contra a droga e actividades juvenis contra a droga. Estes são os novos planos de prevenção.

ARTM: A delinquência juvenil tem aumentado, por diversas vezes somos confrontados com a apreensão de jovens na posse de drogas para consumo ou tráfico. O que é que acha que está a falhar na sociedade, família, escolas ?

Dra. Celeste: A delinquência juvenil deixa-nos realmente bastante preocupados, mas não podemos culpar apenas a sociedade, as famílias, as escolas ou o governo. Existem diversos factores que causam estas situações, podemos exemplificar o acesso aos estupefacientes e o seu tráfico ser bastante fácil e estar a aumentar em especial através da China, o desenvolvimento da informação tecnológica (Internet) etc. que traz também aspectos negativos. Na minha opinião, a família é o apoio mais importante para cada indivíduo e as escolas são as bases de educação para a juventude crescer. O desenvolvimento e a estrutura transmitida numa sociedade moderna são bastante dinâmicas, no entanto, a forma de vida, a pressão do trabalho nos pais e outros sócio aspectos são mais fortes que outrora, assim temos que dar mais atenção a tudo e melhorar a coordenação, especialmente na cooperação entre escolas e famílias, construir uma comunidade segura, interligada em conjunto para prevenir a delinquência juvenil e para salvar aqueles que se encontram nesse caminho. Na realidade, se compararmos com tempos idos, a delinquência juvenil não pode ser considerado um problema bastante sério, inclusive de acordo com a informação da polícia o número de jovens delinquentes está a decrescer. A forma de rebeldia dos jovens alterou-se, no passado existiam lutas de rua, agora vendem droga ou consomem drogas. Mas eu acredito que a maior parte dos jovens de Macau são saudáveis e normais.

Sem qualquer dúvida, os pais necessitam de dar mais atenção, compreender melhor as características da nova geração e dar-lhes instrução. Escolas e Sociedade deviam tentar oferecer aos jovens mais actividades positivas, deixar os jovens expressarem-se a eles mesmos e deixa-los expandir as suas criatividades. Os jovens são curiosos e gostam de coisas excitantes, na realidade a sociedade tem imensas actividades sadias que podem satisfazer e apoiar o desenvolvimento da juventude. Um modo saudável e uma estratégia importante. Deve-se explicar as graves consequências das drogas aos jovens mas evitando uma dimensão singular (um fala, um escuta) educativa e evitar o aumento de curiosidade para que não surjam efeitos contrários. Temos que nos concentrar em algumas técnicas sociais. Para alguns jovens, temos que entender as técnicas do traficante e treinar a juventude em como recusar drogas, tem que ser mais prática do que teórica. Para outros jovens ao promover-mos campanhas contra a droga, podemos afecta-los negativamente. Nós promoveremos campanhas contra a droga esperançados que tragam resultados positivos.

ARTM: Acha que as famílias estão a perder os seus valores próprios e os jovens ganham independência muito mais cedo e não estão preparados para tal?

Dra. Celeste: Com o desenvolvimento da sociedade e da economia, as estruturas familiares tornaram-se mais modernas e os jovens tornam-se mais maturos bastante cedo, se pudermos criar um equilíbrio, poderemos reduzir o lado negativo ao mínimo. Para as novas gerações, a maturidade aparece mais cedo que antes, mas também obtêm conhecimentos mais profundos, a capacidade de conhecimentos também melhorou. Estas são as alterações positivas para as novas gerações. Na minha opinião, não considero que as modernas famílias tenham perdido os seus valores familiares, mas devido a facto da necessidade de ambos os pais terem de trabalhar tenha aumentado, acaba por reduzir o tempo de companhia com os filhos. Se pudermos fazer uma coordenação e acertadamente educar a criança em como efectuar decisões correctas e independentes, a nova geração será melhor que a nossa, a corrente geração.

ARTM: O Sr. Procurador-geral da RAEM, numa entrevista a um jornal local disse que a legislação sobre a droga não contempla um meio termo e como tal, entendia que era um assunto que merecia atenção e reflexão no intuito de proceder a alterações? Qual é a sua opinião?

Dra. Celeste: Eu concordo com a analise feita pelo Sr. Procurador-geral, pelos factos, a lei de Macau contra a droga é pouco flexível, no entanto é necessário imenso tempo para a modificar e devido a alguns problemas de tradução, alguns termos tornaram-se confusos e obsoletos. Os problemas da droga crescem muito rapidamente, então é necessário estarmos permanentemente a avaliar a situação e as suas mudanças para que possamos corresponder com a realidade e adaptarmos ao futuro.

ARTM: Existe um grupo de pessoas que se prepara para apresentar nas Nações Unidas uma resolução para legalizar as drogas, concorda com isso?

Dra. Celeste: Pelos nossos princípios, não podemos aceitar que nenhum tipo de drogas seja legalizada. Esta medida poderá funcionar em países que tenham sérios problemas no controle de estupefacientes, mas para Macau, onde o problema não é grave, não se torna necessário considerar estes métodos extremos. Podemos dizer como exemplo o tabaco, que é legal e ceifa imensas vidas e é bastante difícil desistir deste vício.

ARTM: Em Macau uma grande parte dos consumidores de heroína está infectada com hepatite C e B. Porque não um programa de troca de seringas para evitar esta situação e ao mesmo tempo prevenir uma proliferação do HIV?

Dra. Celeste: Realmente as doenças infecto contagiosas de Hepatite B e C entre os toxicodependentes de Macau é bastante séria, no entanto existem muitos métodos de se resolver estes problemas. O método de distribuição e troca de seringas, de uma nova por uma velha é um deles, mas de momento, o nosso departamento em cooperação com os Serviços de Saúde está a realizar testes de sangue aos toxicodependentes e a educa-los em como reduzir os riscos de contágio e a não utilizarem ou partilharem seringas usadas. Esperamos que estas estratégias possam monitorizar o desenvolvimento de comportamentos de risco, no entanto qualquer tipo de método de consumo assistido não será aplicado.

ARTM: Quais são as directrizes e novidades no combate à droga e no apoio à toxicodependência para 2003?

Dra. Celeste: Durante o ano de 2003 o nosso departamento de prevenção, planeia e pretende estabilizar um centro de Educação Saudável a fim de fortificar a prevenção do consumo de drogas e informação sobre saúde nas crianças. Para além destes trabalhos, iremos estabelecer um centro de informação contra a droga, para que possamos recolher e providenciar informação e educação que melhore o trabalho contra a droga e este se torne mais universal e desenvolvido. Iremos continuar a apoiar as ONG a fim de elaborarem campanhas contra a droga e a desenvolverem planos de educação de prevenção. Iremos também finalizar um estudo sobre os jovens estudantes e o consumo de droga, avaliar a recente situação de consumo de droga entre os adolescentes e aumentar a comunicação e a cooperação com as regiões vizinhas.

ARTM: O desempenho das Ngos em Macau tem sido positivo? Alguma sugestão para que possam melhorar os seus serviços?

Dra. Celeste: As ONG de Macau têm uma enorme responsabilidade em providenciar tratamento de longo prazo de desintoxicação para os toxicodependentes, é um trabalho bastante difícil. Por um lado necessitam de manter um equilíbrio financeiro e por outro lado têm falta de trabalhadores, mas estas situações já melhoraram e ultimamente as necessidades básicas estão estabilizadas. As ONG para desenvolverem os seus serviços, primeiramente têm que estabilizar as suas equipas de trabalho, devido à falta de qualificações ser alta, necessitam de formação profissional. Necessitam também de sentir este trabalho como uma profissão e um desenvolvimento próprio, também é importante encorajar outras pessoas para participar neste tipo de trabalho.

ARTM: Acha que a sociedade em geral devia dar um maior apoio aos ex-toxicodependentes? Acha que existe descriminação relativamente aos toxicodependentes?

Dra. Celeste: A sociedade deve apoiar e assistir a reabilitação, apoiar as famílias vitimadas, para que se possa diminuir o risco de recaída, os toxicodependentes não são criminosos, eles são vitimas das drogas e podem ser considerados como doentes, no entanto os toxicodependentes cometeram crimes para suportar o vicio, exemplo de crimes são o trafico de droga, assalto, roubo, etc, Eles devem ser responsáveis por aquilo que fizeram.

ARTM: Por último, deixe-nos um conselho para os jovens de Macau.

Dra. Celeste: Para os jovens, eu desejo que eles possam apreciar e que aproveitem da melhor forma o seu tempo precioso, sejam fortes quando enfrentam problemas, tomem decisões sábias para com eles mesmos, sejam firmes ao recusar coisas negativas, interessem-se pelo desenvolvimento da sociedade, sejam práticos e optimistas quanto à experiência da vida, nunca parem de evoluir.